Escória – O perigo de uma multidão de miseráveis
Um sci-fi raiz
A editora brasileira Comix Zone trouxe para o Brasil neste dezembro de 2021, Escória, uma história em quadrinhos de ficção científica realizada por Carlos Trillo nos roteiros e Juan Giménez nos desenhos. A edição tem formato grande, acabamento de luxo, capa dura e 56 páginas coloridas em papel de boa qualidade. Antes de tudo, é preciso parabenizar a editora e seus sócios, Ferréz e Thiago por propiciarem um resgate histórico desta obra e outras de calibre tão poderosos o quanto. Talvez, se não fosse por essa editora, Escória ficaria no limbo – não que não exista uma edição relativamente recente, porém, todas não conseguem chegar aos pés do que a obra merece. As cores e o traço de Giménez precisam de condições adequadas para ter o destaque que sempre mereceram.
Contexto histórico
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| Revista Zona 84 (1984) |
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| Basura, Editora Toutain (1989) |
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| Grangrene lançado na França pelo selo Comics USA (1983) |
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literatura pós-apocalíptica, a qual explora a consequência extrema da irresponsabilidade humana, seja por questões referentes ao meio ambiente, seja por conflitos religiosos e políticos ou mesmo pelos avanços irresponsáveis da ciência. O filão de ficção científica e fantasia proliferou com vigor durante as décadas de 70 e 80, gêneros que foram fortemente impactados pela Guerra Fria, o pânico atômico e as revoluções tecnológicas da época. Carlos Trillo com seu texto imaginativo absorvera este zeitgeist. Com tom quase premonitório, Escória pode ter antevisto alguns eventos da humanidade: em 1986, alguns anos após o lançamento de Escória, o ônibus espacial Challenger explode matando os sete tripulantes, fomentando no público os perigos e a real necessidade de missões espaciais. Em 26 de abril de mesmo ano ocorre o acidente nuclear de Chernobil na Ucrânia, televisionando para o mundo a fragilidade do ser humano diante da fúria nuclear e que o terror e o perigo da poeira e detritos mortais são reais. O impacto ambiental é incalculável e as baixas humanas chegam a números surreais, pois impactaram gerações – um verdadeiro pedaço do apocalipse.
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| Estrella Negra para a revista 1984 |
Uma fábula palpável
A ambientação de Escória fala sobre um futuro pós-apocalíptico onde a maioria de toda superfície da terra se tornou um aterro sanitário de medidas colossais, com atmosfera quase irrespirável e uma paisagem morta, desoladora. Os humanos remanescentes neste lixão tentam sobreviver sem qualquer condição favorável, na absoluta miséria. Nesta história, existe três classes: os habitantes das cavernas – a classe que vive na completa miséria; os elevados – uma classe levemente acima dos habitantes das cavernas, possuem um pouco mais de proteção contra a realidade hostil que os cerca, vivendo nas ruínas dos edifícios e os moradores da Cidade Branca – uma elite que mora em cidades herméticas, isoladas do mundo e com uma obsessão paradoxal por limpeza. Estas cidades possuem um complexo sistema de canalização que leva seus dejetos a esses aterros sanitários imensos, que serve para alimentar uma multidão de famintos neste refugo de lixo da classe dominante. O gatilho para trama acontece quando um membro desta elite é sentenciado a descer para o lixão – punição pior que a morte. Agora o povo da Cidade Branca precisa lidar com a vingança do expurgado. A arte de Giménez é muito rica, com detalhes que necessitam que olho corra por todo painel para compor a cena, o cenário é cheio de texturas e as cenas são conduzidas de maneira que se não fosse pelo roteiro, não haveria nem necessidade de texto, de tão cinematográfico que é.
É sabido que as histórias escritas por Trillo contém mensagens sociais, em Escória não é diferente. A metáfora para a exploração dos desfavoráveis, a segregração, o consumismo e a causa ambiental é mais que clara e isto assusta – pois sua construção é possível. Este é o poder da ficção especulativa, o poder de tentar responder o que aconteceria com o mundo diante de um apocalipse climático, um desastre ambiental ou a aniquilação da civilização como conhecemos – a periferia global.
Não
é preciso buscar exemplos fictícios na cultura pop para visualizar o quão
acurados foram Giménez e Trillo: Já existe os fenômenos da “megavilas” da
África subsaariana, assim como a megalópole favelizada de Lagos, que demonstram
o fenômeno das periferias globais. Compostas por regiões inteiras excluídas do
capitalismo financeirizado, imensas porções de território acabaram relegadas à
inferioridade material, à desregulação, à ausência dos benefícios da civilização
e, principalmente, à distância permanente dos meios de produção necessários
para sua autonomia, apresentando graves contradições sociais. Apesar da
perspectiva desoladora, Escória também fala de esperança através da consciência
de classe. Um quadrinho de apenas 56 páginas com um poder de entreter e questionar
não é um feito qualquer. Título certeiro, um dos melhores de 2021.





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