Exhuma e o ressentimento da Coréia





 

Feridas abertas que não fecham


Exhuma

Original:Pamyo

Ano:2024•País:Coreia do Sul

Direção:Jang Jae-hyun

Roteiro:Jang Jae-hyun


Já é recorrente, contudo, é sempre necessário frisar: não é regra, mas bons filmes de terror falam mais do que a primeira camada pôde mostrar. Isto é, o conteúdo está além da primeira forma, mas o meio também. A priori, a premissa do filme é que uma família rica está com problemas envolvendo um bebê, seu herdeiro – que está numa condição patológica inexplicável e ao que tudo indica, o bebê está amaldiçoado, ele está passando por um “chamado da sepultura”, quando um antepassado está em sofrimento e clama pelos seus descendentes de maneira egoísta, adoecendo ou enlouquecendo os mesmos. Uma jovem xamã, seu protegido, um agente funerário e um geomante especialista em feng-shui são convocados para resolver a maldição que ameaça toda família. O que é incomum, além do próprio conteúdo amaldiçoado, é a localização da sepultura do antepassado: numa montanha pouco usual, nada favorável de acordo com os princípios do feng-sui muito próximo da divisa entre as Coreias. Outro detalhe que chama a atenção é que para uma pessoa rica, a sepultura está muito simplória. A lápide contém números de alguma coordenada. Em determinado momento da trama, uma pessoa tenta abrir o caixão (de madeira nobre e entalhes requintados) antes da cremação, o que acaba liberando de vez o espírito amaldiçoado que agora possui poderes de se manifestar neste plano de existência. Então inicia-se uma corrida para capturar o espírito antes que ele leve para a tumba todos seus descendentes.

De fato, esta é a primeira premissa. O caso aparentemente se resolve na metade do filme – e aí que o espectador começa a se aprofundar mais no real sentido do filme, assim como na cultura xamânica e o poder das feridas abertas que em alguns casos, nunca fecham. De maneira bem resumida, o filme fala sobre as feridas nunca cicatrizadas da Coreia (território coreano do norte e sul) perante o imperialismo japonês.



Na primeira cena que a aparece a jovem xamã que está num voo para os Estados Unidos, a aeromoça confunde a moça coreana como uma japonesa, falando o idioma nipônico. Ela prontamente responde em japonês com orgulho que é coreana – já era um indício do que estava por vir. Na segunda metade do filme, um novo caixão é descoberto na sepultura. Desta vez, enterrado em pé, muito maior que o primeiro e todo envolto por arame farpado. Descobre-se então que o que estava ali não era uma alma humana. Mas algo muito próximo do demônio – o filme é dividido em capítulos e esse em particular se chama “demônio” – um espírito que nasceu de desejos, rancores e ódios não só humanos, mas da terra, do metal e do fogo. A figura que se manifesta de todo esse ódio da terra é um colossal samurai que ataca animais e humanos numa fúria desenfreada. Seus trejeitos e falas que aparentemente são desconexos e anacrônicos são nada mais e nada menos que uma personificação do imperialismo japonês.

O antigo império japonês ocupou a coreia formalmente em 1910 (até 1946) mas não antes de se envolver e tentar o domínio a muito tempo, desde o final do século XIX. Quando finalmente subjugou o efêmero império coreano, o Japão iniciou um violento projeto de colonização: proibindo funcionalmente o uso de nomes coreanos e da língua coreana. Dezenas de milhares de artefatos culturais foram saqueados e levados para o Japão. O Japão também criou infraestrutura e indústria. Foram construídos ferrovias, portos e estradas, embora em numerosos casos os trabalhadores estivessem sujeitos a condições de trabalho extremamente precárias e a salários discriminatórios – apesar do desenvolvimento da coreia nesta época, contudo foi como colônia, então seus recursos eram usados pelos japoneses para desenvolvimento próprio. O simbolismo do ferro no filme é nítido – o ferro contaminado de colonialismo. Os pobres e desfavorecidos nunca se beneficiaram desse desenvolvimento e ainda eram obrigados enviar parte de sua produção rural para o Japão. Houve também assassinatos em massa contra os coreanos e que até hoje, políticos proeminentes do Japão negam sistematicamente e quando não, dizem que foram “casos isolados”.

A partir de 1939, com o início da Segunda Guerra Mundial, a vida dos coreanos que já era difícil, piorou. O Japão mobilizou e explorou 4,5 milhões de coreanos para a guerra: removidos a força de suas casas e funções para serem escravizados em vários setores da guerra – que ainda hoje o governo japonês nega. De maneira cruel, meninas e mulheres foram sistematicamente sequestradas para tornarem-se escravas sexuais em mais de 100 bordéis na guerra. Estas pessoas ganharam a irônica e cruel alcunha de “mulheres de conforto” – e até hoje, as sobreviventes ou descendente destas buscam reparações sobre. A extrema direita japonesa até hoje nega o fato. As estimativas são incertas justamente pela forma que os japoneses destruíram provas e documentos contra eles, mas estima-se um número entre 20.000 e 410.000 mulheres usadas como escravas sexuais.

O gigante samurai representa toda a beligerância japonesa – que desumaniza e escraviza os coreanos e sua natureza (meio ambiente). A jovem xamã coreana que foi confundida com uma moça japonesa pode ter em seus traços físicos alguma herança da miscigenação forçada na base do estupro. A família rica do começo do filme com seu antepassado cruel, que era um entreguista – rico enquanto o povo sofria com o colonialismo japonês. Ele era malvado porque antes de tudo, era um traidor da terra e dos seus. O ferro que fere “a cintura do tigre” (como diz um personagem) é o desenvolvimento forçado pelos japoneses que usam os recursos oriundos deste desenvolvimento para seu próprio fim exploratório.  O filme constrói toda uma semiótica para esta afirmação. Há sinais e significados por toda a parte. A forma como o colosso samurai se locomove numa espécie de fogo fátuo também pode ser interpretado como um foo fighter (uma luz, uma bomba da guerra).



Fantasmas e assombrações são, antes de tudo, vestígios e memórias traumáticas sora opacas, ora vívidas de experiências individuais e coletivas que marcaram o tempo – que não se esvaem, mas permanecem se repetindo por tempo indeterminado. Fantasmas de noivas abandonadas e traídas, assombrações em fazendas de café, espíritos errantes por onde ocorreram tsunamis são traumas que não vão embora. Na Ásia esse conceito se amplia para além de vidas humanas, mas animais e demais elementos da natureza também se alinham aos traumas – animais caçados, árvores mortas, raízes arrancadas a força, tudo pode se voltar aos humanos.

Se voltarmos a etimologia, “fantasma” e “fantasia” derivam do termo grego, phantázein, “revelar”, que deriva, por sua vez, de phaínen, “mostrar”. Assombrações são, por falta de expressão mais adequada, uma fantasia sobre os vivos – para defenestrar nossas piores e mais íntimas intenções, desnudando o comportamento humano.  A importância de Exhuma para a Coréia do Sul e um dos motivos que o filme atualmente esteja fazendo sucesso na bilheteria por lá é que a coreia (norte e sul) é um tigre (asiático) ferido e ressentido. Mandelbaum (2018) diz que “é necessário olhar para os fantasmas do passado e enxergá-los em sua monstruosidade, em sua bizarrice, para nos humanizar, questionar a nossa onipotência, lembrar-nos de que somos feitos também de monstruosidades e que estamos presos à nossa história e temos deveres com ela”. As assombrações teimam em não desaparecer para não deixar a história se apagar.

 

Referência

FROSH, Stephen. Assombrações: psicanálise e transmissões fantasmagóricas (C. I. Nakagawa, trad.). São Paulo: Benjamin Editorial, 2018.

PSEK, William. “US-China and Japan – South Korea trade wars undermine world´s economy”. Nikkei Asian Review, 5 ago. 2019.

MANDELBAUM, Belinda. Sobre fantasmas e assombrações. Ide (São Paulo),  São Paulo ,  v. 40, n. 66, p. 193-197,  dez.  2018 .   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010131062018000200021&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  03  jul.  2024.

VISENTINI, Paulo Fagundes. As relações diplomáticas da Ásia. Rio de janeiro: Fino Traço, 2012.

 

 

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